Quatro décadas após o maior terremoto da história do Rio Grande do Norte, município que chegou a perder cerca de 10 mil habitantes voltou a crescer, tornou-se referência em energias renováveis e transformou a resiliência em marca da própria identidade.
Maria de Lourdes Vital ainda lembra o valor do patrimônio que a família deixou para trás quando saiu de João Câmara "com medo dos abalos". Duas casas, um ponto comercial e um terreno foram vendidos por apenas 12 cruzeiros. "O povo trocava casa até por rapadura. Só queria era sair de lá", recorda.
Em novembro de 1986, Lourdes deixou a cidade com o marido e os 11 filhos, dias antes do grande tremor de 5.1. Como milhares de moradores, ela acreditou que não havia mais futuro ali.
"João Câmara, Terra dos Abalos" é uma série especial do g1 que relembra os 40 anos do maior terremoto já registrado no Rio Grande do Norte e um dos maiores do Brasil. A terceira reportagem mostra como uma cidade que foi abandonada por quase metade da população conseguiu se reerguer.
Três anos depois, em 1989, Maria de Lourdes retornou para João Câmara. Encontrou uma cidade diferente daquela que havia deixado: marcada pela destruição, mas também pelo esforço de reconstrução de uma população que decidiu permanecer.
Hoje aposentada, a ex-feirante Maria de Lourdes é símbolo da reconstrução de João Câmara. Aos 85 anos, ela segue vivendo em João Câmara e não pretende deixar a cidade. "Nossa vida está toda aqui", conta.
O município que chegou a perder aproximadamente 10 mil moradores durante a crise sísmica voltou a crescer, recuperou a economia e hoje é um dos principais polos de energia eólica do Rio Grande do Norte.
O fenômeno natural registrado na madrugada de 30 de novembro de 1986 não foi apenas um evento geológico. Para quem vivia em João Câmara, ele representou uma ruptura na rotina, nos planos e na relação das pessoas com o próprio lugar onde moravam.
O problema não terminou quando o maior abalo passou e a sequência de tremores continuou por anos, o que ajudou a alimentar o medo da população.
"Você ter mesmo pequenos tremores, mas toda hora está tremendo, isso abala enormemente as pessoas", explica Joaquim Mendes Ferreira, professor aposentado e um dos pioneiros da sismologia no Rio Grande do Norte.
A consequência foi uma fuga em massa e entre os que foram embora estava Maria de Lourdes. A família vendeu os bens, mudou para Assú e passou anos tentando reconstruir a vida.
"Passamos um tempo apertado. Eram muitos filhos para dar de comer, aluguel para pagar. Foi muito difícil. A gente aguentou quatro anos lá no sofrimento. Voltamos para morar em João Câmara em casa alugada", conta.
A volta não apagou as dificuldades. Apesar do apego afetivo à cidade, a sensação era de começar uma vida nova em um lugar diferente. O marido de Lourdes morreu em 1996, e ela precisou continuar criando os filhos.
"Um filho de Deus me vendeu um ranchinho de casa, eu comecei a trabalhar nas feiras livres. Fomos construindo essa nova casa, pagando de pouquinho em pouquinho, mas foi um tempo de sofrimento muito grande", relata.
A reconstrução
Enquanto moradores tentavam reconstruir a própria vida, João Câmara também precisava se reerguer fisicamente. Casas foram recuperadas, estruturas públicas foram reorganizadas e ações emergenciais tentaram devolver uma rotina mínima à população já a partir de 1987.
O antigo prefeito Ribamar Leite lembra da situação de emergência, com famílias sem trabalhar e dependendo de ajuda para sobreviver. "Grande parte da população trabalhava de forma autônoma ou fazia bicos. Essa parte ficou sem trabalhar. Nós precisávamos alimentar essa população".
A prefeitura organizou a distribuição de alimentos pelas ruas com os veículos disponíveis. Também houve soluções improvisadas para atender moradores. Um circo foi transformado em hospital de campanha depois que estruturas de saúde passaram a ser consideradas inseguras.
"Era o Circo da Cultura, que perambulava pelo Estado. A gente conseguiu trazer ele para amenizar o problema, dar um alegria à população. Depois de um tempo, falei com o governador Radir Pereira e ele autorizou que o circo ficasse na cidade para ser transformado em hospital", conta Ribamar.
A reconstrução das moradias também foi fundamental para que as pessoas voltassem. Segundo o ex-prefeito, cerca de 1,2 mil casas entre João Câmara e Poço Branco foram construídas ou reconstruídas após o terremoto.
Fonte: G1-RN




